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“Será que eu poderia ter feito mais?”

Essa é uma pergunta que pode aparecer após um atendimento difícil, de um óbito, de uma complicação inesperada ou de uma decisão que não teve o desfecho esperado.

Na Medicina Veterinária, trabalhar com cuidado também significa conviver com situações nas quais nem tudo está sob o controle do profissional. Ainda assim, diante de uma perda ou de um resultado difícil, não é incomum que o médico veterinário volte repetidamente ao que aconteceu e questione suas próprias decisões.

Refletir sobre a própria atuação é importante. Faz parte da responsabilidade profissional, do aprendizado e do desenvolvimento clínico.

Mas existe uma diferença entre reconhecer responsabilidades e assumir para si a responsabilidade por tudo o que aconteceu.

Quando essa fronteira se perde, a culpa pode deixar de contribuir para o aprendizado e passar a produzir sofrimento.

De onde pode vir a culpa na Medicina Veterinária?

A prática veterinária envolve decisões complexas e, muitas vezes, tomadas em contextos de incerteza.

A culpa pode aparecer, por exemplo, depois da morte de um paciente.

Mesmo quando todos os recursos possíveis foram utilizados, o profissional pode continuar se perguntando se havia algo diferente que poderia ter feito.

Também pode surgir diante de um erro ou de uma complicação.

Nesses casos, reconhecer o que aconteceu, analisar a conduta e identificar possibilidades de aprendizado é fundamental. Mas assumir um erro não precisa significar transformar aquele episódio em uma definição permanente sobre a própria competência profissional.

“Eu deveria ter conseguido salvar”

Existe uma expectativa particularmente difícil nas profissões relacionadas ao cuidado: a sensação de que um bom profissional deveria ser capaz de evitar todos os desfechos negativos.

Mas a Medicina Veterinária não acontece em um cenário de controle absoluto.

Existem limites impostos pela própria condição clínica, pela resposta individual aos tratamentos, pela disponibilidade de recursos e por diferentes circunstâncias que fazem parte de cada caso.

Um desfecho ruim, portanto, não significa automaticamente que houve uma falha profissional.

Reconhecer essa diferença é essencial.

Quando existem limitações financeiras

Outra situação frequente ocorre quando o tratamento considerado mais adequado não pode ser realizado por limitações financeiras dos responsáveis.

O médico veterinário pode saber quais seriam as possibilidades diagnósticas ou terapêuticas ideais e, ainda assim, não conseguir colocá-las em prática.

A literatura veterinária já descreve os conflitos éticos e o sofrimento moral que podem surgir quando profissionais sabem qual cuidado gostariam de oferecer, mas encontram obstáculos que impedem sua realização.

Nessas situações, pode aparecer a sensação de:

“Eu deveria ter conseguido fazer mais.”

Mas é importante perguntar:

Isso realmente estava sob o controle daquele profissional?

Nem toda limitação encontrada durante um atendimento é uma responsabilidade individual do médico veterinário.

Culpa após um erro

Falar sobre culpa também exige cuidado para não cair no extremo oposto.

Nem toda culpa é necessariamente excessiva.

Erros podem acontecer, e responsabilidade profissional significa estar disposto a reconhecê-los, compreender o que contribuiu para que acontecessem e, quando necessário, reparar e modificar condutas.

O problema está em transformar:

“Eu cometi um erro”

Em

“Eu sou um profissional incapaz.”

Uma afirmação descreve um acontecimento que pode ser analisado.

A outra transforma esse acontecimento em um julgamento sobre toda a identidade profissional.

Quando isso acontece, a culpa pode alimentar ruminação, insegurança e autocobrança.

Responsabilidade e autocobrança não são a mesma coisa

Após uma situação difícil, algumas perguntas podem ajudar a organizar essa experiência:

O que realmente estava sob meu controle?

O que eu sabia no momento em que precisei tomar aquela decisão?

Existe algo que preciso reconhecer, reparar ou aprender?

Estou avaliando minha decisão com base nas informações que eu tinha naquele momento ou no que descobri depois?

Estou assumindo sozinho uma responsabilidade que envolvia outros fatores?

Essas perguntas não servem para eliminar responsabilidades.

Servem para colocá-las em perspectiva.

Responsabilidade profissional pode levar à reflexão, ao aprendizado, à mudança de conduta e à reparação quando necessária.

A autocobrança excessiva, por outro lado, pode manter o profissional preso à ideia de que deveria ter sido capaz de controlar circunstâncias que ultrapassavam sua atuação.

Quando a culpa começa a ocupar espaço demais

A culpa merece atenção quando deixa de estar relacionada apenas à reflexão sobre um acontecimento e passa a acompanhar o profissional de maneira persistente.

Repassar mentalmente o caso inúmeras vezes, ter dificuldade para confiar novamente nas próprias decisões, sentir medo intenso diante de situações semelhantes ou perceber que um episódio continua interferindo significativamente na rotina são sinais que não precisam ser ignorados.

Conversar com colegas de confiança, discutir casos em espaços profissionais seguros e buscar acompanhamento psicológico quando necessário podem ajudar a elaborar essas experiências.

E esse cuidado não deveria depender exclusivamente do indivíduo.

Equipes e organizações também podem contribuir criando ambientes em que situações difíceis possam ser discutidas sem uma cultura baseada apenas em culpabilização.

Nem tudo o que acontece com um paciente depende de você

A Medicina Veterinária exige responsabilidade.

Mas responsabilidade não significa onipotência.

Nem sempre será possível salvar um paciente.

Nem sempre será possível realizar todas as possibilidades terapêuticas.

Nem todo resultado inesperado poderia ter sido previsto.

E, quando houver um erro, reconhecer o que aconteceu não significa que o profissional precise carregar aquele episódio como uma condenação permanente.

Talvez uma das perguntas mais importantes após uma situação difícil não seja somente:

“De quem foi a culpa?”

Mas também:

“O que estava sob meu controle, o que podemos aprender com isso e de que cuidado eu preciso agora?”

Diferenciar responsabilidade de autocobrança excessiva não diminui o compromisso com a profissão.

Pode, ao contrário, permitir que o aprendizado aconteça sem que o sofrimento se torne parte obrigatória dele.

Cuidar de quem cuida também significa reconhecer que profissionais responsáveis não precisam se sentir responsáveis por tudo.


Referências

Kipperman BS, Morris P, Rollin B. Ethical dilemmas encountered by small animal veterinarians: characterisation, responses, consequences and beliefs regarding euthanasia. Veterinary Record. 2018;182(19):548.

Moses L, Malowney MJ, Boyd JW. Ethical conflict and moral distress in veterinary practice: a survey of North American veterinarians. Journal of Veterinary Internal Medicine. 2018;32(6):2115–2122.

Crane MF, Phillips JK, Karin E. Trait perfectionism strengthens the negative effects of moral stressors occurring in veterinary practice. Australian Veterinary Journal. 2015;93(10):354–360.


Ekoa Vet

Associação Brasileira em prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária.

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