Quando a perda é sentida por muitos: o luto coletivo na Medicina Veterinária
Quando falamos sobre luto, é comum imaginarmos uma experiência individual: uma pessoa diante da perda de alguém ou de um animal com quem mantinha um vínculo significativo.
Mas existem acontecimentos que atravessam muitas pessoas ao mesmo tempo.
Uma perda pode mobilizar uma equipe inteira, uma instituição, uma comunidade ou até uma categoria profissional. É nesse contexto que podemos compreender o luto coletivo: uma experiência de perda que, embora seja vivenciada de maneira particular por cada pessoa, é compartilhada por um grupo.
Na Medicina Veterinária, essa discussão merece espaço.
Quando uma perda ultrapassa o indivíduo
A rotina veterinária já envolve contato frequente com situações emocionalmente exigentes, como morte de pacientes, eutanásias, comunicação de notícias difíceis e acompanhamento do sofrimento dos responsáveis.
Um estudo realizado com 549 médicos veterinários brasileiros mostrou que a morte de pacientes representa uma preocupação emocional relevante para esses profissionais. Entre os participantes, 91% relataram não ter recebido treinamento para lidar com o luto durante a graduação.¹
Outros estudos também mostram que profissionais veterinários podem ser emocionalmente impactados pelo contato recorrente com a morte e pelo suporte oferecido a responsáveis enlutados.² ³
Agora imagine quando a perda deixa de envolver somente um paciente ou uma família.
Desastres naturais, episódios de violência contra animais, acidentes que envolvem vários pacientes, acontecimentos traumáticos dentro de hospitais ou clínicas e perdas que mobilizam uma equipe inteira podem produzir uma experiência compartilhada de sofrimento.
Nessas situações, não existe apenas “a dor de uma pessoa”.
Existe um acontecimento que passa a fazer parte da história daquele grupo.
Compartilhar a perda não significa sentir da mesma maneira
Um aspecto fundamental do luto coletivo é compreender que uma experiência compartilhada não produz necessariamente reações iguais.
Diante do mesmo acontecimento, uma pessoa pode sentir tristeza intensa. Outra pode experimentar raiva ou impotência. Alguém pode precisar falar repetidamente sobre o que aconteceu, enquanto outra pessoa pode preferir o silêncio.
Também podem surgir culpa, questionamentos sobre decisões tomadas, sensação de injustiça ou dificuldade para retomar determinadas atividades.
Nenhuma equipe atravessa uma perda como se fosse uma única pessoa.
Por isso, criar espaço para o luto não significa determinar como todos devem reagir. Significa reconhecer que algo aconteceu e permitir que diferentes experiências possam existir.
O risco de simplesmente voltar à rotina
Em profissões ligadas ao cuidado, existe uma tendência compreensível de priorizar rapidamente a próxima demanda.
Há outros pacientes esperando.
Outros responsáveis precisam de atendimento.
A equipe precisa continuar funcionando.
Mas a continuidade do trabalho não elimina necessariamente o impacto emocional de uma perda.
Pesquisas sobre luto profissional em profissionais da saúde mostram que a exposição repetida à morte de pacientes pode gerar sofrimento emocional e que esse luto muitas vezes permanece pouco reconhecido dentro das instituições.?
Embora a Medicina Veterinária tenha particularidades próprias, essa discussão ajuda a lembrar que o profissional também estabelece vínculos, participa de histórias e pode ser afetado pelas perdas que presencia.
Estudos com profissionais veterinários já identificaram um impacto cumulativo associado às experiências de morte de animais e ao acompanhamento de responsáveis enlutados.³
Quando um acontecimento afeta toda uma equipe, ignorar seu impacto e simplesmente exigir o retorno imediato à normalidade pode deixar pouco espaço para que essa experiência seja reconhecida.
Quando o cuidado também precisa ser coletivo
Diante de uma perda compartilhada, o cuidado não deveria depender exclusivamente da capacidade individual de cada profissional para “lidar com a situação”.
As próprias organizações podem exercer um papel importante.
Isso pode envolver:
- reconhecer formalmente o impacto do acontecimento;
- oferecer espaços seguros e voluntários de conversa;
- permitir que diferentes formas de vivenciar a perda sejam respeitadas;
- fortalecer o apoio entre colegas;
- observar profissionais que apresentem sofrimento significativo;
- facilitar o acesso a suporte psicológico quando necessário;
- revisar processos e condições de trabalho quando o acontecimento estiver relacionado ao contexto organizacional.
A literatura de outras áreas da saúde oferece um dado interessante nesse sentido: estudos sobre suporte organizacional ao luto indicam que reconhecer as relações estabelecidas com pacientes falecidos e incluir os profissionais nos processos de apoio pode estar associado a melhores indicadores de bem-estar ocupacional.?
Isso reforça uma ideia importante: não é responsabilidade apenas do indivíduo encontrar maneiras de suportar experiências emocionalmente difíceis.
As condições oferecidas pela organização também fazem parte do cuidado.
Falar sobre a perda não significa patologizar o luto
Reconhecer o impacto emocional de uma perda também não significa considerar toda reação de tristeza como um transtorno psicológico.
O luto é uma resposta humana à perda.
Nem todas as pessoas precisarão de acompanhamento psicológico, e nem todas reagirão com a mesma intensidade.
O objetivo de criar espaços de cuidado é justamente permitir que as pessoas possam reconhecer o que estão vivendo, encontrar suporte quando necessário e perceber quando o sofrimento começa a comprometer de maneira importante sua vida pessoal ou profissional.
Uma pesquisa recente sobre luto pela perda de animais entre profissionais veterinários também chama atenção para essa diversidade. Embora os veterinários avaliados tenham apresentado, em média, respostas mais adaptativas do que a população geral, uma parcela relevante relatou não se sentir apoiada, não se sentir compreendida ou não conseguir expressar naturalmente seu próprio luto.?
Ou seja: experiência profissional não torna alguém imune à perda.
Cuidar de quem cuida também diante das perdas
A Medicina Veterinária é uma profissão profundamente relacionada à vida.
E, justamente por isso, também convive de maneira muito próxima com a morte, a perda e o sofrimento.
Quando um acontecimento atinge uma equipe ou uma comunidade inteira, reconhecer seu impacto não é fragilizar os profissionais.
É compreender que pessoas que trabalham cuidando também são atravessadas pelas experiências que vivem.
Talvez, diante de uma perda coletiva, a pergunta não deva ser apenas:
“Como retomamos a rotina?”
Mas também:
“Como estão as pessoas que precisam retomá-la?”
Construir uma Medicina Veterinária mais saudável também significa criar ambientes em que as perdas possam ser reconhecidas, conversadas e cuidadas.
Quando o luto é coletivo, o cuidado também precisa ser.
Referências
- Pereira G.G. et al. The Emotional Impact of Patient Loss on Brazilian Veterinarians. Veterinary Sciences. 2024;11(1):3. DOI: 10.3390/vetsci11010003.
- Hewson C. Impact of dealing with bereaved clients on the psychological wellbeing of veterinarians. Australian Veterinary Journal. 2019.
- Deacon R.E.; Brough P.B. Companion animal death and client bereavement: A qualitative investigation of veterinary nurses' caregiving experiences. Death Studies. 2021;45(10):805–816. DOI: 10.1080/07481187.2019.1696424.
- Phillips C.S. et al. Hidden in Plain Sight: A Scoping Review of Professional Grief in Healthcare and Charting a Path for Change. 2025.
- A Comparative Study of Organizational Grief Support and Burnout Among Nursing Home Staff. 2024.
- Muñoz-Rascón P.; Morgaz Rodríguez J.; López-Cepero J. Companion animal bereavement in veterinary professionals: Assessment with the Pet Bereavement Questionnaire-Redux and comparison with the general population. Research in Veterinary Science. 2026;210:106274. DOI: 10.1016/j.rvsc.2026.106274.
Associação Brasileira em prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária.